Esse texto abaixo eu originalmente postei no Facebook. Muitas pessoas compartilharam e recebi muitas mensagens de agradecimento por ter ajudado de alguma forma.

“Calma que tudo vai dar certo”

Sim…..até vai mesmo mas não é algo que vem como um chiste do universo agraciando você depois de tempos de mazelas. Se ficar parado esperando e lamentando “poxa….não consigo emprego”, “Essa crise ta foda de arrumar trabalho”, “Maldito (adicione seu político preferido)….sem ele não estaria nessa merda” nada vai acontecer.

Eu já dei todas essas desculpas a mim. Já dei essas desculpas a minha esposa e a minha família. Fiquei sentado reclamando com colegas, assistindo minhas contas chegando e não ter como pagar. O mais irônico é que sempre me vi como alguém que não teme trabalho duro. Sempre corri atrás. Hoje percebo que não bastava só correr atrás. Todos estão fazendo o mesmo. Sou só mais um na multidão.

Ser reativo foi meu erro por muitos anos. O pensamento “tenho contas a pagar então tenho q arrumar um emprego” é um pensamento natural mas pobre. É uma atitude reativa. Você está se movendo pois a vida está lhe estapeando a cara e se você não reagir é engolfado.

Em 2013 meu sonho tinha chegado ao fim. Tive uma oportunidade de me juntar a pessoas talentosas e fazer o que mais amava. Todas as pessoas viam uma loucura da minha parte mas eu via um sonho que podia se tornar real. Assim entrei na Critical Studio. Lá dei um salto artístico que nunca imaginei alcançar. Aprendi a aprender. Foram 3 anos de aprendizado, esforço, alegria…..e acabou.

Quando você vive um sonho (o que é raro as pessoas realizarem) e ele acaba é uma sensação muito estranha. É como estar num barco num nevoeiro muito denso e você sabe que tem um monte de recifes, pedras e toda sorte de ameaças e você não sabe pra onde esta indo ou o que fazer ou onde vai chegar e encontrar. Você nem sabe se deve seguir em frente ou ficar parado.

Foi assim comigo. Retirei minhas coisas pessoais e entreguei as chaves do estúdio em agosto de 2013 e, sem rumo, fiquei enviando currículos por 6 meses. O dinheiro acabou e fiquei endividado. Lamentei, chorei, fiquei com raiva, me afastei da minha esposa e no desespero completo desisti de desenhar.

Conversei com minha esposa pois tive a ideia de sair do país e tentar a vida em outro lugar. Recomeçar sem o desenho na minha vida. Estava reagindo motivado a desespero. Conversei com parentes e arrumei um emprego como peão de obra no USA. Como disse antes, não tenho medo de trabalho e nunca vi vergonha em trabalhar em profissões que são reconhecidas como de pessoas que não tiveram outra oportunidade na vida. Recebi algumas críticas do tipo “Você não devia se submeter a esse tipo de coisa” mas a verdade é que não ter horizonte faz você se agarrar a primeira boia que aparece nesse mar de incertezas.

Disse adeus a minha esposa, a minha família e amigos e fui desbravar esse nevoeiro. No início foi ótimo pois deixei de lado os problemas e deixei-me contaminar com as novidades do novo país. É empolgante conhecer lugares e costumes novos. Você se sente o máximo absorvendo tudo ao seu redor. Mas esse frescor não dura tanto tempo assim e o isolamento começa cobrar da sua mente. Não deu certo, por motivos óbvios, trabalhar como peão de obra. Quase morri e quase perdi a mão 3 vezes. Achei melhor entender o aviso e pular fora. Fiquei sem emprego e com contas em dollar. O plano se mostrou a pior ideia que já tive em toda minha vida. Passei 2 meses desempregado e isolado. Pensei em fazer merda e ficar ilegal no USA mas era só mais reação a situação merda que estava passando.

Depois de 2 meses arrumei alguns trabalhos em padaria e posto de gasolina. No Brasil minha esposa havia entrado numa depressão profunda e eu nada podia fazer alem de tentar contornar com palavras. Entrei na rotina de sub emprego americano e comecei a definhar. Sentia que estava morrendo todo dia. Fiz uma única amizade que me ajudou em momentos mais complicados mas não foi suficiente e realizei que não havia como escapar. Eu olhei para trás e vi todos os anos de festas, baladas, farras nas madrugadas e um dia eu acordei com 35 anos e só sabia desenhar. Realizei que não conseguiria viver com aquilo e voltei ao Brasil. Se fosse para ser derrotado pela vida e esperar qual seria minha sentença então que seria ao lado da família.

Cheguei no Brasil em agosto de 2014 e fazia 1 ano que eu não tinha feito 1 desenho sequer. Como já tinha realizado a derrota uma tranquilidade tomou conta de tudo. Afinal eu não tinha muito mais o que perder. Resolvi desembrulhar minha tablet e desenhar just for fun. Comecei a desenhar só pra mim. Desenhei dias sem parar só idéias que eu achava divertido e que adoraria ver realizadas por outras pessoas. Jogos que não existem alem da minha cabeça. Histórias que pensava desde criança. Fazer o redesign de personagens que sou fã. Essa era minha cachaça (afinal de contas eu não tinha dinheiro para me alcoolizar).

Eu botei tanto carinho nesses trabalhos que foi natural contagiar outras pessoas. Passei a postar no facebook e a reação foi surpreendentemente boa. Eu estava produzindo tanta coisa concreta com início, meio e fim que a percepção das pessoas ao meu redor era que eu estava trabalhando MUITO, com váááários jobs, com uma agenda lotada e com um puta sucesso (afinal eu fui da Critical e fizemos Dungeonland). Eu notei isso. Outras pessoas também notaram e um dia o telefone toca e era uma pessoa que eu não conhecia e queria saber se eu tinha agenda para um freela.

Dentro de mim eu estava pulando de alegria e toparia qualquer valor para ao menos pagar uma continha. Esfriei a cabeça e pedi para me enviar um email com briefing que eu respoderia com orçamento e cronograma. Na verdade eu só queria um tempo para tomar um banho e arrumar a mente para agarrar a oportunidade ou ficar bem se ela fosse embora. Deu certo e faz 1 ano que eu cada vez durmo menos ao lado da minha esposa mas finalmente chegou o momento que tenho tanto trabalho que tive que recusar e indicar colegas.

Hoje vejo tudo isso e tento ser uma pessoa ativa ao invés de reativa. Abri mão dos meus dias de boardgame e quando paro para jogar no PC são jogos de partidas de 15min (sim, é possível jogar apenas 15 min)

Essa foto é a lembrança de onde eu fui e não temo voltar se preciso for. Esse momento me marcou de uma forma absurdamente profunda que me mudou para sempre.